Segundo o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), existem mais de 13 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha de extrema pobreza, ou seja, sem o mínimo de alimentos com as calorias necessárias para suprir adequadamente uma pessoa com base nas recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde). Se considerarmos a linha da pobreza, em que a renda domiciliar per capita equivale ao dobro da linha de extrema pobreza, o número sobe para mais de 39 milhões de pessoas.
Mas o que fazer para mudar esta realidade? Daniel Izzo, sócio da Vox Capital, decidiu que poderia agir para modificar este cenário. Isso aconteceu quando ele trabalhava em uma multinacional, ainda na empresa ele conseguiu começar um projeto para pessoas de classes mais baixas. “Mas eu sentia que podia e queria fazer mais”, conta Izzo, hoje sócio da Vox Capital, uma gestora de fundos de venture capital. Daniel é o terceiro entrevistado da Série Especial Raio X do Investidor.
Conheça como funciona a Vox Capital e quem é Daniel Izzo.
Daniel Izzo, sócio da Vox Capital
LinkedIn: http://br.linkedin.com/in/danielizzo
Contato: Rua Francisco Iasi, 178 – Pinheiros – São Paulo
Site: http://www.voxcapital.com.br/
E-mail: vox@voxcapital.com.br
Telefone: (11) 3034-4555
Como você saiu do mundo corporativo para fundar a Vox Capital?
Eu vivi uma crise de valores quando estava trabalhando na Johnson & Johnson, passei a acreditar que os negócios deveriam ter um objetivo maior do que simplesmente dar lucro e retorno para quem já tinha bastante dinheiro. A partir desta crise eu conheci algumas pessoas que trabalhavam com a questão social e também investi como anjo em uma empresa social chamada Tekoha, uma rede que comercializa brindes sustentáveis feitos por comunidades de todo o Brasil. Investi sem saber se teria retorno para apoiar o empreendedor e sua ideia. Em uma reunião ouvi suas dificuldades, ele queria causar impacto social, mas não era uma ONG, e sim uma empresa. E como toda empresa ele precisava de uma boa equipe, mas ele não tinha dinheiro, marca e tamanho para trazer essas pessoas para seu negócio. Nesse momento eu pensei: se ele tem esses desafios, todos os outros empreendedores que querem criar um negócio com impacto social irão passar pelo mesmo caminho. Havia a oportunidade e necessidade de criação de um fundo que apoiasse esse tipo de empreendedor não só com dinheiro, mas também com ajuda estratégica e em gestão. Eu nunca tinha pensado em ser investidor, tinha até preconceito, mas quando eu vi a oportunidade e o impacto positivo que poderia causar resolvi encarar o desafio.
Como você encontrou outras pessoas que também acreditavam que um fundo voltado a negócios com impacto social?
Nessa mesma reunião conheci a Kelly Michael, fundadora da Artemisia, que também queria criar este fundo. A Kelly agregou o Antonio Moraes, que pensava em criar este tipo de fundo com sua família. Nós três criamos a Vox em janeiro de 2009. É interessante na história da Vox os três sócios terem tido a ideia de criar um fundo para apoiar negócios sociais de maneira independente e de acordo com a história de vida de cada um deles.
Qual o atual momento da Vox Capital?
Estamos estruturando um novo fundo com objetivo de 50 milhões de reais, nosso principal desafio é o de encontrar empresas e empreendedores interessantes que valham a pena investir. O dinheiro que os fundos colocam nunca é deles, é sempre de um investidor. Quando eu coloco dinheiro em uma empresa ele não é meu, estou alocando recursos de um terceiro. É preciso ser muito criterioso, principalmente porque estamos falando de capital semente, investimos em empresas recém-surgidas, com faturamento ainda muito baixo, às vezes negócios que ainda estão no papel. Mais importante do que um bom plano de negócios, é o empreendedor, ele faz muita diferença nesse estágio de desenvolvimento. Damos muito peso para o empreendedor.
E qual o perfil de empreendedor que vocês buscam?
Procuramos empreendedores com muito potencial para crescer. Preferimos um empreendedor classe A com um plano de negócios classe B a um empreendedor classe B com um plano de negócios classe A. Quando você tira o negócio do papel e o coloca na rua ele precisará de adaptação, não existe planilha pronta. Por isso precisamos de um empreendedor e uma equipe capazes de fazer as adaptações que o mundo real pedirá.
O que é um empreendedor classe A na sua visão?
Procuramos empreendedores com alguma experiência no setor que ele irá empreender ou que tenha alguém em sua equipe com essa expertise. Além disse é fundamental que tenha vontade de mudar o mundo, ou seja, querer resolver algum problema da base da pirâmide social brasileira. Uma boa formação acadêmica e abertura para compartilhar decisões são essenciais. O fundo vai colocar dinheiro, abrir redes, ajudar o empreendedor a estruturar processos, vamos agregar valor ao negócio. Temos uma postura de sócio, de alinhar interesses, ‘o seu sucesso é o meu sucesso’ no capital de risco. Mas é importante ressaltar que nem todo negócio precisa de um investidor externo.
Quais os investimentos já feitos pela Vox Capital?
Hoje temos dois investimentos feitos e duas empresas já aprovadas. Nosso primeiro investimento foi estratégico, pois ele nos ajuda a avaliar os demais, é a consultoria Plano CDE, uma empresa de pesquisa de mercado, consultoria e treinamento sobre base da pirâmide. Em um ano e meio eles já são lucrativos e cresceram 200% só no primeiro ano. Este foi o investimento feito em 2009. Já em 2010, nós olhamos de 150 a 200 empresas e selecionamos três delas. Decidimos por investir no CDI Lan, negócio dedicado a distribuir produtos e serviços em lan houses, que ainda respondem por 50% do acesso a web no país. Hoje já vendemos microcrédito, crédito consignado e e-learning. O CDI Lan também ajuda os donos de lan house, que são pessoas de classes C ou D, manterem seus empreendimentos saudáveis.
A Vox tem capital para investir mais? Vocês procuram novas empresas?
Nós temos capital e procuramos novas empresas para investir. Nosso objetivo nesse primeiro semestre é investir em três empresas. Podemos investir em duas já aprovadas ou em novas. Estamos olhando alguns setores em especial: saúde, educação, serviços financeiros, habitação e tecnologia aplicada a esses segmentos. Sempre com foco nos consumidores de baixa renda.
Como vocês selecionam as empresas?
Nós chegamos até a maioria das empresas por meio de nossos parceiros: Artemisia, Endevor, outros fundos de investimento como a Performa Investimentos, Aceleradora e também em eventos. Estamos sempre prospectando, uma conversa sempre pode gerar uma ideia. Em alguns casos recebemos planos de negocio, mas não é a maioria. Os empreendedores interessados em enviar seu plano de negócio podem mandar para o e-mail: vox@voxcapital.com.br. Temos preferência para investimento em São Paulo, mas estamos abertos para ideias interessantes em outros lugares.
(No site da Vox Capital você encontra dicas do que eles desejam ver em seu plano de negócios, clique em contato para conferir)
Vocês sentem dificuldade de encontrar bons projetos?
É difícil, mas eu diria que é uma dificuldade comum. Os dados da indústria americana de venture capital também apontam 100 empresas avaliadas para um investimento.
Como é a relação do fundo com o empreendedor na gestão?
Ainda existe uma percepção errônea do papel do investidor, se coloca muito peso, como se ele tivesse um poder muito grande. Na realidade, o empreendedor precisa tanto do investidor quanto o investidor do empreendedor. É uma relação de parceria, para ser saudável as duas partes devem colocar constantemente valor na sociedade. Não existe no capital semente uma relação saudável se o investidor só coloca dinheiro e fica cobrando resultado.









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